O governo Trump e o TikTok

O TikTok é um aplicativo que tem como função principal a criação e o compartilhamento de vídeos curtos. De propriedade da companhia chinesa ByteDance, foi lançado na China em setembro de 2016 chegando ao mercado internacional um ano depois. É líder na Ásia, Estados Unidos e em outras partes do mundo, com cerca de 800 milhões de usuários, pouco menos que a soma dos usuários do Snapchat e Twitter.

 

Em 2019 foi baixado mais de 750 milhões de vezes; foram várias dezenas de milhões de downloads a mais do que Facebook, Instagram, YouTube e Snapchat obtiveram no mesmo período. O aplicativo está disponível em 150 países e 75 idiomas; quase um terço da população americana já o baixou; os brasileiros estão entre os cinco maiores contingentes de usuários. Desses 800 milhões de usuários, a maioria tem entre 16 e 24 anos e 90% deles acessam o TikTok mais de uma vez por dia, ficando conectados cerca de 52 minutos, em média; em torno de um bilhão de vídeos são vistos a cada 24 horas.

Tudo isso transformou o TikTok numa máquina de fazer dinheiro, mas não é essa a principal razão pela qual entrou na mira do governo Trump, que diz pretender proibi-lo nos Estados Unidos. Trump acusa o aplicativo de distribuir propaganda contrária aos interesses americanos e de espionar seus usuários, coletando dados daqueles que fazem e assistem os vídeos e repassando-os ao governo chinês, sabidamente uma ditadura que pode exigir esse repasse, por poder absoluto sobre as empresas do país.

O governo americano e algumas grandes empresas daquele país já proibiram a instalação do aplicativo em equipamentos corporativos, talvez motivados também pelo fato de usuários do TikTok terem utilizado o aplicativo para realizar uma campanha de inscrições falsas para um comício de Trump em Tulsa, Oklahoma, deixando muitos lugares vazios e submetendo o presidente a um vexame.

As suspeitas sobre o TikTok têm fundamento: causou escândalo a retirada do ar de vídeos postados pelos usuários que faziam referência à dura repressão que o governo de Pequim vem exercendo sobre os muçulmanos uigures chineses.

A ByteDance, temendo o fim do acesso ao mercado americano, que lhe traria grandes prejuízos, vem tentando "americanizar" o aplicativo, já tendo contratado um executivo americano para dirigi-lo, falando em instalar sua sede fora da China e considerando a possiblidade de vendê-lo.

Mas para a sociedade como um todo, banir o TikTok não é a melhor solução, pois ele poderia não repassar os dados que coleta diretamente aos chineses, mas vendê-los a outra empresa e, essa sim repassá-los a Beijing. Além disso, sua presença no mercado pode diminuir o poder de seu principal competidor, o Facebook, que também se encontra sob pressão do público e de órgãos do governo americano, acusado de práticas não muito éticas, inclusive apoiando as pressões que Trump vem fazendo sobre o TikTok.

A melhor solução seria mantê-lo e submetê-lo a regras mais rigorosas acerca da coleta, manipulação e uso de informações; também deveriam ser tornados mais transparentes os algoritmos usados para definir o que os usuários verão ou não. Evidentemente, essas regras também deveriam ser aplicadas a outras empresas que operam produtos semelhantes, como o próprio Facebook, Instagram, Pinterest e outros.

Outra preocupação pertinente é a falta de preparo dos políticos que deverão orientar a tomada de decisões acerca de temas delicados como esses; exemplo clássico, ocorrido no Brasil, é o dos dois deputados estaduais de Santa Catarina, que por meio de um projeto de lei, pretenderam proibir testes e instalação da tecnologia 5G no estado, sob a alegação de possíveis danos à saúde das pessoas e animais.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.